//Não é só futebol, e elas estão provando isso.

Não é só futebol, e elas estão provando isso.

Nunca foi só futebol. Vivemos de reproduzir essa frase tão significativa e repleta de grandes histórias. Para as mulheres que insistem em jogar e dedicar a vida ao esporte, essa máxima cai como uma luva.

Há menos de um mês da Copa do Mundo de Futebol Feminino na França, uma notícia relacionada ao mundial ganhou destaque nos cadernos de esporte internacional. A vencedora da bola de ouro em 2018 e maior fenômeno atual do futebol norueguês, Ada Herberg, não está na lista de convocadas para a Copa do Mundo. A notícia, no entanto, não surpreende. A ausência no maior campeonato do mundo foi uma opção da atleta, que desde 2017 anunciou que não iria mais defender a seleção, por discordar do modo como o futebol feminino é tratado no país.

Na época em que tomou a decisão, Ada explicou que a seleção e a Federação Norueguesa de Futebol (NFF) precisariam tomar medidas para evoluir a modalidade no país. No mesmo ano a entidade anunciou a igualdade dos salários entre homens e mulheres da seleção principal, propondo uma redução no valor da equipe masculina, que foi rapidamente aceita. Mas a mudança não alterou a decisão de Herberg, que falou em entrevista à rede NRK da Noruega, sobre questões maiores que dinheiro.

“Algumas boas mudanças seriam necessárias para eu considerar um retorno ao time. Não é questão de eu mudar de ideia ou não. A questão é que a federação e a seleção precisam evoluir, e há um longo caminho neste sentido”.

O acordo de igualdade salarial proposto pela NFF praticamente quase dobrou a remuneração da seleção feminina, que passou de 3,1 milhões de coroas suecas (R$ 1,309 mi) para 6 milhões de coroas (R$ 2,535 mi). E nem precisa pensar muito para chegar à conclusão de que o anúncio e as declarações da jogadora mais importante do país tiveram um grande peso na mudança.

Há cinco anos, Ada atua no Lyon, uma grande equipe francesa, detentora de quatro títulos da Champions League. Desses, Herberg participou da conquista de três. E mais uma vez o Lyon está na final da Champions League esse ano, disputando a taça com o Barcelona, da Espanha. Ou seja, esse número pode aumentar.

Outros casos

Além de Ada Herberg, outras atletas têm feito a diferença em questões políticas e de desenvolvimento do Futebol Feminino em seus países.

A argentina Macarena Sanchez, ficou mundialmente conhecida esse ano por iniciar um manifesto pela profissionalização da modalidade no país.

O resultado foi positivo. A Associação Argentina de Futebol (AFA), anunciou a profissionalização do futebol feminino, estabelecendo que os 16 clubes que compõem a liga devem ter no mínimo oito atletas com contratos profissionais. Além disso, a entidade se comprometeu a dar 120 mil pesos (cerca de R$ 11,4 mil) a cada clube, para auxiliar nos custos. Atualmente Sanchez é uma das 15 atletas profissionais da equipe do San Lorenzo.

 

EUA

Nos Estados Unidos, todas as jogadoras da seleção feminina estão processando a Federação Americana de Futebol por discriminação de gênero. O processo foi iniciado no histórico 8 de março, dia internacional da mulher. As reivindicações, além da questão salarial, abarcam também os métodos e locais de treinamento, tratamento médico, e viagens.  Até então, as duas partes não entraram em consenso.

A seleção Americana é a maior campeã mundial, com três títulos. Detentora de recordes e números expressivos comercialmente, como vendas de camisas, ingressos e uma boa visibilidade e aceitação do público americano, a equipe perece diante de uma Federação que se mostrou por diversas vezes inflexível quando o assunto é igualdade de gênero.

Nova Zelândia

A nova Federação de Futebol da Nova Zelândia acompanhou a decisão norueguesa e igualou os salários das seleções feminina e masculina, além de promover melhorias em estrutura para viagens e treinamento.

E no Brasil?

Apesar do debate pela igualdade de gênero no futebol ainda engatinhar, tivemos bons avanços. Desde a primeira e até então única passagem de uma mulher no comando da canarinha (Emily Lima, 2017/2018), foi criado um departamento de Futebol Feminino que trouxe em pauta discussões importantes sobre o desenvolvimento da modalidade no país. Na época, nomes como Aline Pellegrino, atual coordenadora de Futebol Feminino na Federação Paulista de Futebol (FPF), faziam parte da equipe.

Com a saída de Emily, o departamento foi extinto, e as esperanças na progressão das mudanças voltaram à estaca zero. Um grupo de jogadoras da seleção chegou até a escrever uma carta para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), pedindo a permanência da técnica e uma série de mudanças na modalidade. No entanto, não surtiu tanto efeito, e isso fez com que algumas jogadoras como Cristiane e Rosana, anunciassem a aposentadoria da seleção principal. Cristiane voltou atrás tempos depois, e estará presente no mundial deste ano.

A decisão da Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL) de exigir que clubes da primeira divisão tenham equipes femininas no elenco a partir deste ano, fez com que os grandes times brasileiros abrissem as portas para o futebol feminino. Uns com mais incentivo e investimento que outros. Essa decisão atingirá a série A2 (ou série B) em 2020. Com a nova presidência da CBF, vieram alguns investimentos que incluem o futebol feminino. Por enquanto é aguardar para ver se serão cumpridos como está no papel.

O fato é que a luta das mulheres tem feito a diferença para fazer com que o futebol seja cada vez mais um esporte para todos. E que além do esporte, os direitos, o respeito e a representatividade, daqui a alguns anos, seja algo natural, ao ponto de não merecer uma manchete de jornal.

Fotos: San Lorenzo (galeria site)/ CBF (galeria site)/ Goal.com