//TVU Esporte: De extensão universitária à janela de representatividade

TVU Esporte: De extensão universitária à janela de representatividade

Por: Emilia Sosa

 

Você, mulher, que gosta de esporte e sempre viu um ambiente dominado por homens, lembra de quando era uma criança que se interessava pelo assunto, mas quando ligava a TV raramente se via representada em programas esportivos? Agora imagine se você ligasse a tv e se deparasse com mulheres falando de diferentes modalidades de esportes: futebol, vôlei, automobilismo, o que será que você pensaria vendo uma cena dessas? Como seria entender desde pequena que a mulher tem voz e espaço para falar de qualquer assunto, inclusive de esporte? Hoje não sabemos como seria, mas desde 2016, quando o TVU Esporte montou uma equipe feita majoritariamente por mulheres, milhares de meninas do Rio Grande do Norte têm essa oportunidade.

A TVU é a TV Universitária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que também é afiliada da TV Brasil, uma TV pública que vai ao ar em todo estado. O TVU Esporte é um programa jornalístico esportivo que faz parte da programação da TVU desde a década de 90, mas foi em 2016 que passou por uma reformulação na estrutura, e passou a ser um programa composto exclusivamente por mulheres, oferecendo assim, oportunidades para as estudantes da área da comunicação desenvolverem todo tipo de trabalho dentro do telejornal, como a produção, apresentação, reportagem e comentários.

Apresentadoras e comentaristas do TVU Esporte /Foto: Acerto pessoal

As atuais protagonistas

O TVU Esporte deu oportunidades para estudantes como Camila Emily, que sempre gostou de futebol, mas desde a infância ouvia que não iria ao estádio “porque você é menina e lá só vai ter homem”. Quando ingressou no curso de jornalismo, nunca imaginou que lá encontraria o tão sonhado espaço da mulher falando de futebol. Camila conta que conheceu o TVU Esporte em 2018, logo na recepção dos calouros, e ficou fascinada com a possibilidade de mulheres produzirem um programa esportivo inteiro. “Elas falaram e eu pensei: meu Deus, eu preciso participar desse projeto! Eu nunca tinha visto na minha vida, até hoje, fora esse. Eu nunca ouvi nenhum outro modelo de projeto que nem o TVU Esporte, onde só mulheres produziam, comentavam, reportavam”. Logo de cara, Camila se inscreveu para a seleção e hoje é produtora e comentarista. 

Camila entende e valoriza todo o ensinamento “extra” que projetos de extensão universitária proporcionam aos alunos que têm a oportunidade de fazer parte. “Ao longo do tempo eu fui aprendendo várias coisas, aprendendo na prática mesmo. Tenho amigos que entraram junto comigo, que nunca tiveram contato, por exemplo, com um estúdio, e eles já estão no 5ª período”. Na UFRN, a disciplina de telejornalismo é ofertada a partir do 5º período do curso de jornalismo. 

“Tem coisas que eu acho que uma disciplina de telejornalismo vá ensinar. Tem coisas que eu acho que não tem sala de aula nenhuma que ensine. E ainda bem que eu pude aprender no projeto. Então, o projeto não é só uma realização de sonho, profissional, ele contribui muito para a minha formação acadêmica como jornalista em si”, completou Camila.  

No momento, Camila é a produtora do TVU Esporte, porque é bolsista do projeto, mas também atua como comentarista e repórter de campo, além de receber auxílio de outras integrantes do projeto na produção. Apesar de que para ela seja normal trabalhar de maneira itinerante, Camila entende a importância deste formato de equipe, Talvez em um projeto que tivesse uma participação masculina, nós mulheres não teríamos o espaço que temos. Eu fico muito feliz porque quando eu não tô comentando, tem outra mulher lá comentando no meu lugar (…) Quando eu não vou fazer o jogo, eu fico despreocupada, porque alguma das meninas foi. Quando eu não desfruto da oportunidade, eu sei que tem outra de mim lá fazendo aquilo, realizando o sonho”

Camila Emilly, produtora e comentarista do TVU Esporte /Foto: Acerto pessoal 

 

Em relação à equipe, Milka Moura, que atualmente é apresentadora do TVU Esporte, é mais uma integrante que divide o sentimento de união e gratidão, “Me orgulho muito de falar isso, que somos uma equipe que se ajuda muito”, afirma.  Milka entrou no curso de jornalismo motivada por seu gosto pela escrita e se surpreendeu com a proposta do programa: “Eu entrei na faculdade porque sempre gostei muito de escrever, gostei muito de ler, mas eu nunca achei que eu fosse para a tv (…) Eu achava incrível o projeto ser no formato que é, apresentado, comentado e produzido por mulheres. Quando abriu a seleção, eu mandei carta e não esperava ser escolhida, a Ju, que na época era produtora, me deu um super apoio e eu fui escolhida”, conta ela. 

Quando entrou no projeto, Milka não se imaginava nem fazendo TV nem trabalhando com esportes, mas quando surgiu a oportunidade de apresentar o programa, o apoio das companheiras de equipe foi fundamental para que ela buscasse encarar o desafio. “Recebi muito apoio das meninas, acho que antes de que eu acreditasse em mim, elas já acreditavam”, “A primeira vez que eu apresentei o programa saiu a certeza de que era isso que eu quero fazer, trabalhar em TV, e que eu sou capaz de fazer isso, e que bom que eu tive pessoas que me incentivaram a fazer isso, porque eu sozinha nunca iria chegar a essa conclusão”, declarou, Milka.

Milka Moura, apresentadora do TVU Esporte / Foto: Acervo pessoal

 

O depoimento de Milka e Camila comprovam que, para além de um projeto de extensão universitária, o TVU Esporte transforma a vida das participantes, assim como foi para Juliana Teixeira, que é graduada em educação física, atualmente faz jornalismo e faz parte do TVU Esporte desde 2017. “O projeto tem uma importância enorme na minha vida, desde que descobri que era formado só por mulheres foi ainda mais especial, já que eu sou da área do esporte e sei o quanto é machista”. 

Se comentaristas de grandes emissoras já recebem críticas por falarem de esportes, um projeto universitário composto por mulheres, infelizmente, não seria diferente. “Esse projeto tem uma importância que vai muito além do jornalismo. Ouvimos comentários como ‘essas meninas são muito ruins’, ‘hoje você foi uma me***’, falam que a gente defende ‘um discurso vazio de representatividade’, tudo isso vindo de homens que nunca vão entender o que é ser mulher na nossa sociedade, ainda mais em ambientes majoritariamente masculinos”, comenta Juliana.

Juliana Lima, repórter e comentarista do TVU Esporte / Foto: Acervo pessoal

 

O TVU Esporte é um projeto de extensão universitária que atua nos moldes de uma empresa, proporcionando para as integrantes uma amostra da vida profissional. Mas o que o programa não tem de parecido com a realidade, é a predominância das mulheres na equipe. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgou em 2018 que desde 1991 a desigualdade entre homens e mulheres quase não caiu. Há 27 anos, as mulheres apareciam 26% menos que os homens, e em 2018 essa diferença foi para 24,1%. Em 2018, 48,5% das mulheres com mais de 15 anos estavam no mercado de trabalho, enquanto para os homens essa taxa é de 75%. Dados como esses só comprovam a importância do projeto e da representatividade feminina dentro de espaços que elas cresceram ouvindo que não eram seus. 

E falando em representatividade, o TVU Esporte e a TV Universitária do Rio Grande do Norte são bons exemplos de que é possível contribuir para que mulheres possam ocupar cada vez mais todos os espaços, e nada melhor do que um ambiente universitário para impulsionar esse grande passo de transformação.