*Texto por Amanda Porfirio e Mariana Santos
O dia era pra entrar para a história e ficar marcado como o grande “start” da Copa do Mundo feminina no Brasil, a primeira da América Latina. As ruas de Copacabana estavam sendo pintadas, rememorando a tradição e paixão brasileira pelo futebol. Ao chegar no hotel, já parecia Copa. E era! A Copa do Mundo feminina, a que tanto pedimos, já estava ali. Já tinha suas cores e todo o seu protocolo.
O evento tinha tudo pra ser perfeito, até começar. Teve ali alguns minutos de música, capoeira, brasilidade e ídolos como Cristiane e Formiga no palco. Marta apareceu no telão, à distância, deixando algumas palavras para o público. E daí, tudo desandou.
Boa parte da hora seguinte de programação foi dedicada a diversas homenagens aos homens que fizeram história no futebol brasileiro. Da Copa de 58 até a de 2002, passamos pelos pioneiros do primeiro título brasileiro até os personagens da conquista da última estrela.
Do auditório, assistindo o momento de glória deles, estavam as pioneiras: Pretinha, Marisa, Michael Jackson… todas elas sequer convidadas ao palco e menos ainda vendo suas histórias de luta e superação sendo mostradas ao mundo.
Na sala de imprensa, o estranhamento e a confusão na cabeça de todos.
- Mas o que é isso? Não era pra ser um evento da Copa do Mundo feminina?
- Por que estão homenageando os homens?
- Convidaram uma campeã espanhola e nem deram espaço pra ela falar?
- Por que a Jill Ellis desceu do palco?
- E já divulgaram a marca?
Qual é a marca e o slogan da Copa?
Ah, a marca. Estávamos até esquecendo que o evento era especialmente para isso. Na verdade já tinham divulgado, mas não demoraram em destacá-la e explicar seu conceito e sua composição. A marca o slogan foram divulgados sem nenhum tipo de tratamento especial e, segundo a FIFA, teria uma explicação posteriormente do conceito da marca. Mas no evento não teria tempo, afinal, o craque do tetra em 94 precisava receber “seu troféu”.
E sejamos sinceros, não é que esses ídolos não mereçam reconhecimento e homenagens, mas não teria mesmo um momento melhor que não seja um evento dedicado à Copa do Mundo feminina? Não poderia a FIFA realizar um outro calendário com esse objetivo?
E quando a “homenagem” aos vencedores da Copa do Mundo masculina terminou, parecia que tudo ia voltar para os trilhos e que as mulheres seriam homenageadas… Mas, engano nosso, a cerimônia simplesmente acabou. Encerrou. Fim.
A também decepcionante ‘segunda parte’ do evento
Ainda como parte do evento, algumas pioneiras e outras ex-jogadoras da Seleção Brasileira Feminina foram convidadas para um jogo de futebol em uma arena montada na praia de Copacabana. Os times foram uma mescla de diferentes gerações da seleção com garotas de projetos sociais voltados ao futebol feminino.
Ainda assim, sem a liberação para público acompanhar e apenas com a presença da imprensa – muitos chegaram ao final do jogo pois o evento começou antes de terminar a coletiva de imprensa no hotel onde foi a cerimônia de lançamento -, foi mais um evento “escondido” da Fifa.
A presença de diversas craques do futebol brasileiro e de projetos sociais voltados ao futebol poderia ter sido melhor aproveitada, afinal, era uma boa ideia dentro das tantas falhas. A sensação que fica era que dava pra ter feito mais e sabemos que dava.
E falando sobre a entrevista coletiva após a cerimônia, foi outro ponto (dos tantos) decepcionante do evento. Apenas uma mulher falou oficialmente, Jill Ellis, diretora de futebol feminino da FIFA. E perguntada sobre a falta de mais mulheres no evento, ainda desconversou e foi “política” ao responder sobre a presença dos ex-jogadores na cerimônia.
Além da ex-técnica dos EUA, somente o presidente da CBF, Samir Xaudi, e o técnico da seleção feminina, Arthur Elias, falaram. Como se já não estivéssemos em um clima ruim o suficiente, alguns jornalistas ainda insistiam em fazer perguntas sobre o futebol masculino ao presidente da CBF. Num evento de lançamento de Copa do Mundo Feminina. Difícil defender.
Entre tantas camadas e falhas desse evento organizado pela FIFA, fica o sentimento de que ainda temos que caminhar muito pelo básico. Era fazer o básico ter mais mulheres num evento especialmente para lançar a Copa delas. Era básico homenagear ou pelo menos lembrar das pioneiras e outras jogadoras que fizeram história pela seleção brasileira em Copas do Mundo. Era o básico e o certo a se fazer. Mas quando se trata de futebol feminino não temos garantia nem disso.

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