As vozes femininas do futebol: a nova geração de narradoras e comentaristas esportivas

A história de mulheres que vêm ocupando cada vez mais as transmissões dos jogos de futebol

Por: Emilia Sosa

Antes de começar a leitura deste texto, é necessário que você faça um exercício: feche os olhos e pense nas vozes do jornalismo esportivo no início dos anos 2000. Pense em quem passava as maiores emoções do futebol e outros esportes. De quantas mulheres você lembrou? Agora pense nos maiores eventos esportivos dos anos 2010/2011, de quem são as vozes dessas memórias? Uma ou outra repórter e apresentadora que fazem parte desses momentos. E o futebol feminino nesses anos? Quantas memórias temos de mulheres falando de outras mulheres praticando este esporte ainda tão machista e seletivo? E se você descobrisse que a terceira década do século está sendo construída de maneira diferente? Além de poder ouvir outros tons e timbres contando a história do futebol, também é possível ouvir (e muito) as histórias do futebol feminino sendo contadas. Daqui para frente, muitas das próximas memórias afetivas em relação ao esporte, serão construídas com diversidade, como já deveria ter sido há muito tempo.

As vozes do futuro

Nos intensos e emocionantes gritos de gol no último minuto dos acréscimos, podemos, por exemplo, ouvir a voz da mineira Eduarda Gonçalves. Eduarda iniciou a sua trajetória ainda em 2018, em uma parceria da faculdade que estudava com a Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte, mas foi em 2019 que ela começou com o trabalho intenso atrás dos microfones. De lá para cá, Eduarda esteve presente em diversos momentos do futebol mineiro, narrou a final do Campeonato Mineiro de Futebol Feminino pela TV Galo, mas o momento em que ela despertou e olhou para os lados não enxergando nenhuma outra mulher como sua colega, foi na sua primeira experiência no Mineirão.

“Foi a minha primeira transmissão como narradora, e na tribuna de imprensa só tinham homens no dia, e por mais que eu já narrasse há algum tempo, as pessoas já me conhecessem e soubessem quem eu era, para mim foi estranho. Porque é uma voz feminina em uma tribuna de imprensa completamente rodeada por homens e você é a única voz  feminina e ainda narra um jogo de futebol “, contou. 

Eduarda Gonçalves na final do Campeonato Mineiro / Arquivo pessoal

Felizmente, o cenário está se diversificando mesmo que em passos lentos. Mas ela ainda lamenta que ainda estamos retratando as primeiras mulheres a exercerem essa atividade.
“Bom, eu sei que eu sou dessa geração que está mudando o cenário. Eu digo com muito pesar e com muita tristeza que por todos os lugares onde eu passei, eu fui pioneira em alguma coisa. Eu fui a primeira mulher a narrar em um canal do Youtube, eu fui a primeira mulher negra a narrar em um rádio em MG, sabe? Eu acho que é muito triste a gente dizer em 2021 que somos as primeiras mulheres a fazer algo.” disse.

“Por cada lugar que eu passo, eu tento levar uma mulher”.

Apesar das dificuldades, Eduarda entende a importância de fazer parte da construção desse caminho:


“É super importante que a gente divida esses espaços e que a gente chegue cada vez mais. Eu tenho um lema de que: ‘Por cada lugar que eu passo, eu tento levar uma mulher’. Se me pedem uma indicação de um trabalho, eu tento indicar uma mulher, principalmente uma mulher negra. Porque eu acho que é essencial que a gente ocupe esses espaços, mas não sozinhas, porque a gente com certeza, não chegou naqueles espaços sozinhas. A força que as mulheres dão umas para as outras, isso é único, é muito diferente”.

As novas memórias afetivas dos momentos decisivos das partidas também podem contar com as informações precisas de Natália Santana. Apreciadora de futebol desde criança e santista fanática, tentou a vida dentro das quatro linhas, mas foi vendo outra mulher com o microfone na mão, em uma campanha de Libertadores, que o estalo veio:

“Um dia vendo na tv uma repórter de campo, foi em época de Libertadores, que o Santos venceu em 2011, eu falei: ‘Olha, é uma possibilidade de eu estar perto do futebol’. Aí, pensei em fazer jornalismo esportivo, porque eu queria ser repórter de campo”, contou.

Como a única repórter de campo do ABC Paulista, Natália sente o peso da responsabilidade que é inspirar outras mulheres na profissão: 

“Pra mim é uma felicidade saber que eu inspiro e que eu preciso continuar trabalhando, preciso continuar acreditando no meu trabalho, militando, porque a gente fala que mulher em campo é um ato político. Então, que eu continue tendo esse ato político para motivar outras mulheres, e que a gente possa cada vez mais ocupar esses espaços em toda sociedade, porque o futebol, ele é reflexo do que é a sociedade”.

E não são só pelas reportagens que Natália vem fazendo história. Junto com uma equipe 100% feminina, ela participou das transmissões dos jogos do Paulistão Feminino 2020, além de atuar como comentarista nas transmissões dos jogos do Brasileirão sub-16 e sub-18. 

Sem muitas referências femininas na mídia esportiva, foi quando começou a participar desses espaços que ela encontrou acolhimento: 

“A partir do momento que eu comecei a dividir o espaço com outras mulheres na mídia, pra mim foi acolhedor, porque as minhas dificuldades e as minhas vitórias, as minhas conquistas e derrotas, sempre foram muito similares a elas. Então é um espaço muito acolhedor. (…) Nós temos muita sororidade e dividimos momentos de lutas e de glórias também. Pra mim é um cenário importante.” disse.

Bianca Penha e Natália Santana Estádio Primeiro de Maio em São Bernardo / Arquivo pessoal

  

Ao lado de Natália, a comentarista Bianca Penha faz parte do time das mulheres que participam das transmissões no estado de São Paulo. Além de fazer parte das equipes que cobriram o Paulistão Feminino 2020, Bianca também atuou nos jogos do Brasileirão sub-16 e sub-18. 

Se mudou para São Paulo com a motivação de ser jornalista esportiva, seu objetivo principal era contar histórias da maneira mais leve e descontraída possível, como fazia Tiago Leifert. Mas, quando fala em inspiração, é Natalie Gedra que Bianca tem orgulho de citar, principalmente depois de um conselho importante após uma aula magna no curso de jornalismo:

Ela conversou bastante sobre isso, de estar muito bem preparada para todos os eventos que ia fazer, principalmente quando estamos no esporte, nós mulheres somos julgadas como todas e como peso dois, um erro banal cometido por homem, ninguém liga, agora quando é uma mulher, ela é muito julgada como se estivessem colocando um motivo para eles dizerem que aquele não é o nosso espaço”. destacou Bianca.

“Então, foi uma questão que sempre pegou muito para mim, essas palavras da Natalie ficaram gravadas”. complementou.

Após essa experiência, Bianca sempre se dedicou aos estudos para não dar a oportunidade às críticas:
“Meu início de carreira sempre foi muito baseado em estudar o máximo, de sempre trazer o máximo de informação e tentar não ser essas pessoas que ia colocar em jogo, em xeque, a capacidade de todas as outras mulheres extremamente competentes que a gente tem”.

Junto com todo cuidado para não errar e não colocar em dúvida o seu trabalho e de outras mulheres, Bianca não se vê como inspiração, pois acredita que existem outras histórias que podem fazer isso, mas fica feliz de fazer parte da transformação:

“Eu acho que existem muitas outras histórias, muitas outras pessoas para a gente se inspirar. E essa geração de uma forma geral, está em uma luta que já vem de antes, não fomos nós que começamos, nós estamos conseguindo virar um pouco mais essa roda, um pouco mais essa chave (…) mas, eu fico muito feliz de saber que a gente está mudando esse cenário, de olhar para o lado e ver cada vez mais mulheres presentes e olhar para o passado e ver as mulheres que tiveram lá e que fizeram com que fosse possível a gente chegar, que fosse possível a gente sonhar”. 

“Entender que esse espaço é nosso, a gente já entendeu. A gente está tentando fazer os outros entenderem agora, porque ainda tem muito o que ser feito, muito para lutar, muito para as pessoas entenderem que aquele é o nosso espaço”. finalizou Bianca.

A história sendo escrita por todos os cantos

Júlia Carvalho e Jessyanne Bezerra na final do Potiguar Feminino 2020 / Arquivo pessoal

A participação das mulheres nas transmissões de futebol vem se popularizando cada vez mais em todos os cantos do Brasil, e pela primeira vez na história o Rio Grande do Norte teve uma equipe 100% feminina em uma transmissão. Este marco aconteceu na final do Campeonato Potiguar Feminino, enquanto Júlia Carvalho narrava todos os lances da decisão entre União-RN e América-RN, Jessyanne Bezerra teceu os comentários pontuais sobre a partida que sagrou o América-RN campeão do estadual. 

Ainda são poucas Eduardas e Júlias ecoando os gritos de gol, ou raras as Natálias que trazem todas as informações precisas na beira do campo e arriscam comentando as partidas junto com as Biancas muito bem preparadas e as Jessyannes estreantes, mas com talento de sobra. As referências ainda são limitadas, mas agora, as apaixonadas por futebol podem fechar os olhos e aguardar por um futuro muito mais diverso e, principalmente, representativo. 

Jornalista, gaúcha que tem uma relação de amor e ódio com o país RS. Gosta de futebol desde sempre e usa seu espacinho no mundo para defender que mulheres joguem, falem e façam o que quiserem dentro da modalidade. Assiste futebol, fala de futebol, escreve sobre futebol e não sabe nem chutar uma bola. Fala igual uma matraca longe de uma câmera, adora conversar e contar histórias.
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