“Não deixe ninguém dizer que esse sonho não é para você”: em entrevista exclusiva, Thaísa Moreno comenta aposentadoria e avalia o futuro do futebol feminino

Thaísa de Moraes Rosa Moreno, conhecida como Thaísa Moreno, aos 37 anos, anunciou sua aposentadoria do futebol feminino.

Em entrevista ao Fut das Minas, Thaísa contou mais sobre sua aposentadoria, o início de sua carreira e como era a seleção sob o comando de Vadão.

A carreira profissional da jogadora começou em 2011, quando ingressou no Foz Cataratas. Ela conta, no entanto, que desde criança já tinha a bola — ou melhor, bexigas — nos pés. “Eu e meu irmão, nos aniversários, vivíamos chutando bexigas e tentando driblar um ao outro. Então, essa vontade de jogar já estava ali, de algum jeito, desde pequenininha”, afirma.

Quando questionada sobre as dificuldades desse começo, ela afirma que sentia alguns olhares de reprovação, como se estivesse fazendo algo errado. Havia também o fato de ser a única menina jogando entre os meninos, o que a deixava envergonhada.

Já ouvi de parentes e amigos dos meus pais que ‘não era bonito menina jogar’. Eu ficava sem graça na hora, mas depois esquecia e ia jogar de novo.

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Thaísa no futebol internacional

Logo em seguida, em 2014, foi para o futebol europeu. Jogou na Suécia pelo Tyresö FF, onde foi vice-campeã da Liga dos Campeões. Em 2017, retornou à Europa para atuar pelo Grindavík FC, na Islândia. Em 2018, transferiu-se para os Estados Unidos para jogar no Sky Blue FC, mas, no mesmo ano, seguiu para o Milan, tornando-se a primeira brasileira contratada pelo time. Posteriormente, foi para o Real Madrid, clube em que também foi a primeira brasileira a ser contratada.

Quando questionada sobre o que essas experiências trouxeram para sua vida pessoal, a craque destaca a capacidade de adaptação. Ela cita que precisou se adaptar a diferentes culturas, idiomas e culinárias, o que a fez amadurecer e se tornar uma pessoa mais aberta.

Sobre os Estados Unidos, ela destaca a intensidade. Na Espanha, aprendeu a entender melhor como criar superioridade em qualquer parte do campo. Já na Itália, o foco esteve no jogo sem a bola: como se movimentar e abrir espaços.

Cada país tinha uma maneira própria de enxergar e jogar futebol, então fui me tornando uma atleta mais completa.

Nelson Fatagraf

A era Vadão

Na Seleção, brilhou sob o comando de Oswaldo Alvarez, o Vadão. Integrou a equipe que conquistou a Copa América em 2014 e 2018. Pela amarelinha, também conquistou a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2015 e representou o Brasil nas Olimpíadas de 2016. Foi convocada para a Copa do Mundo Feminina de 2019, sendo um dos destaques do time.

Para começar a conversa, Thaísa relembra a primeira convocação para defender a seleção brasileira. Na época, o anúncio era feito pelo site da CBF. “Quando entramos no site e vi meu nome, não acreditei”, complementa.

Sem dúvida nenhuma, meu maior orgulho foi vestir a camisa da Seleção Brasileira. Não existe emoção maior do que representar o Brasil no mais alto nível. É algo que vou levar comigo para sempre.

Ao ser questionada sobre o jogo mais marcante com a camisa da Seleção, ela cita a vitória por 5 a 1 contra a Suécia na Rio 2016. “Ganhar daquela forma, no Engenhão lotado, com a torcida empurrando a gente do início ao fim, foi inesquecível. O mais marcante, para mim, foi sentir aquela energia da torcida e saber que o Brasil estava ali, junto com a gente.”

Sobre o técnico Vadão, Thaísa foi só elogios. Afirmou que ele era como um pai e que defendia o futebol feminino com muito amor. Citou também que o legado dele para o futuro foi o lado humano, pois ele demonstrava que ser treinador não era apenas pensar em resultados, mas cuidar de todos e acreditar nas atletas.

Thaísa dividiu campo com nomes como Marta, Formiga e Cristiane e, mais tarde, juntou-se a elas no hall de atletas de destaque da seleção feminina. Ela afirma que jogar ao lado delas foi essencial para seu crescimento e lhe deu uma bagagem enorme.

Porque um dia você é a novinha, chega deslumbrada com tudo e aprende com jogadoras que sempre foram suas referências. Depois, quando percebe, é você que está sendo o exemplo. Então, espero também ter conseguido passar alguma coisa para as mais jovens e ter sido uma referência positiva para elas, assim como essas craques foram para mim

@flamengofutebolfeminino/Instagram

A decisão da aposentadoria

A volante do Flamengo anunciou em julho de 2026 sua aposentadoria, aos 37 anos, após uma carreira de quase duas décadas. Sobre essa decisão, que nunca é fácil, ela comenta sobre a chegada e a saída de Rosana no comando do time. Com a chegada da treinadora, sentiu um ânimo gigantesco, mas, após a saída dela do clube, a dificuldade retornou. Outra figura marcante nessa decisão foi seu psicólogo, com quem conversava para entender o que estava acontecendo e se aquele sentimento vinha da rotina, dela própria ou de outros fatores.

Outro ponto importante foi a não renovação do contrato. Mesmo com a Copa Feminina próxima, Thaísa entendeu que não fazia mais sentido manter o esforço para tentar reencontrar a felicidade dentro de campo. Paralelamente, as oportunidades fora dos gramados começaram a encantar a craque.

Meu objetivo agora é me preparar para trabalhar na Copa do Mundo. Como atleta, não seria mais possível viver esse momento, então estou me preparando para estar presente de outra forma, participando de um momento tão marcante para a modalidade no nosso país, além de estar ligada à gestão de carreira de atletas.

Para o futuro, Thaísa comenta sobre o objetivo de se tornar diretora de um clube, para poder aplicar tudo o que viveu e aprendeu durante a carreira. Além disso, ela abriu uma empresa de agência focada em futebol feminino, a TFC Sports Agency, a qual ela vai empresariar novos talentos e dar continuidade ao crescimento do esporte.

KevinAirs

Futuro e Copa do Mundo 2027

Thaísa, como mencionado, iniciou no futebol feminino em 2011 e integrou a seleção em 2014 — há mais de 10 anos. Por isso, levantou-se o tema das mudanças no futebol feminino atual e do que ainda precisa melhorar ou mudar.

Dentre as evoluções, o que mais foi sentido pela craque foi a criação de campeonatos importantes para as categorias de base e, principalmente, o ganho de visibilidade. Ela comenta que antigamente era difícil até assistir a uma partida feminina, mas hoje é possível acompanhar quase todos os jogos do Brasileirão, por exemplo.

Hoje, inclusive, vejo uma estrutura de transmissão e acompanhamento dos jogos que considero muito positiva, até comparando com experiências que tive na Espanha e na Itália.

Quanto aos pontos a melhorar, ela destaca a formação e a preparação dos profissionais que trabalham com as atletas, sendo esse um dos aspectos que mais necessitam de mudança. Thaísa afirma que não basta ter uma categoria de base ou um time feminino; é preciso contar com pessoas que entendam as necessidades do dia a dia da modalidade, desde o diretor até a rouparia.

Existem profissionais altamente qualificados, mas ainda precisamos ampliar esse nível de preparação. Gostaria de ver mais pessoas buscando conhecimento e mais oportunidades de formação, além de cursos acessíveis para quem quer trabalhar e se desenvolver dentro do futebol feminino.

Sobre a Copa do Mundo de 2027, ela afirma que o evento colocará o futebol feminino ainda mais no centro das atenções, o que pode acelerar mudanças que demorariam anos para acontecer. “O legado de uma Copa no Brasil é imensurável. Tenho certeza de que vai abrir a mente de muita gente e tornar o caminho dessas jovens meninas mais fácil, com mais apoio, mais oportunidades e menos preconceito”, complementa.

Para finalizar a entrevista, ela deixa um recado para as meninas que estão começando: “Vai sem medo. Viva o seu sonho, acredite e aproveite cada etapa do caminho. Não tenha medo de sonhar grande. E, principalmente, não deixe que ninguém diga que esse esporte ou esse sonho não é para você.”

Jornalista formada, apaixonada por boas histórias, cadernos bonitos e esportes desde sempre. Gosto de observar o que está fora do foco principal, escutar com atenção e transformar isso em texto. Sou do interior de São Paulo, moro em Londrina e encontrei na escrita uma forma de estar perto do que me move — seja dentro de um campo ou nas entrelinhas do cotidiano. No tempo livre, vivo nas redes sociais, faço artesanato, assisto a alguma série que já vi antes e penso em novas formas de contar o mundo com afeto e criatividade.