Falta de repasse financeiro afeta permanência do futebol feminino no América-RN: “é tirar dinheiro da boca de uma pessoa que iria fazer diferença, sabe?”

Foto: Patrícia Oliveira @poa_sport

Por: Amanda Porfirio e Emília Sosa

A Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019 é considerada a virada de chave para o desenvolvimento do futebol feminino no mundo, especialmente no Brasil, que ganhou investimento no seu campeonato principal, quebrando recordes de audiência e tendo crescimento visível dos clubes.

Porém, essa realidade não chega a todos os clubes do país, que vivem uma rotina de luta por sobrevivência. Assim é o caso do América-RN, equipe de Natal que participou do Brasileirão A2 e, recentemente, divulgou uma carta aberta à população, assinada por Júlia Medeiros, ex-Coordenadora de Futebol Feminino, denunciando falta de repasses financeiros e auxílio por parte da presidência do clube.

De acordo com Júlia, o América-RN recebeu R$ 50.000 reais referentes a um repasse de auxílio da CBF, exclusivamente para equipes de futebol feminino se manterem em meio à pandemia da Covid-19. Mas, desse valor, nada foi repassado para o departamento de futebol feminino que, atualmente, tem dívidas acumuladas e atletas com lesões esperando investimento no tratamento. 

Apesar de lastimável, a situação não é inédita para Júlia e boa parte do grupo de atletas que pertenciam antes ao Cruzeiro de Macaíba. O extinto clube já protagonizou essa mesma situação, reportada aqui no Fut das Minas. Para entender melhor como se deu essa transição para o América-RN, é importante relembrar como a história do grupo de atletas no Cruzeiro de Macaíba chegou ao fim.

O início no Cruzeiro de Macaíba

O Cruzeiro de Macaíba foi o único representante do Rio Grande do Norte no Brasileirão Feminino A2 em 2020. Entretando, com a chegada da pandemia da covid-19, as atletas sofreram com sérios problemas financeiros devido à falta de repasses financeiros por parte do clube. Apesar de ser considerada uma equipe profissional pela junto à Federação Norte-Riograndense de futebol, a estrutura seguiu sendo amadora, mesmo disputando a competição nacional. Até 2019, diversas atletas jogavam de forma voluntária, sem receber salários.

Em 2020, a nova gestão do clube se comprometeu a fazer o pagamento dos salários às jogadoras. Entre as 22 atletas que faziam parte do plantel na época, os valores do acordo variaram entre R$ 400 (para a maioria) e R$ 2.500 (jogadoras profissionais), segundo o presidente do clube, Odilon Benício.

Segundo as atletas, o repasse acordado antes da pandemia seguiu sendo cumprido por parte da equipe. No entanto, durante a pausa do futebol, a CBF concedeu um repasse financeiro a todos os clubes que estavam disputando competições nacionais no período da interrupção dos campeonatos. Apesar disso, as jogadoras relataram na época, que após o recebimento deste auxílio por parte do clube, nenhum outro repasse foi encaminhado.

Parceria com o América-RN

Após os problemas enfrentados no Cruzeiro de Macaíba, o grupo de atletas e comissão decidiu dar um novo passo em busca de melhores condições para jogar futebol. Em janeiro deste ano, foi anunciada a fusão com o América-RN que, após nove anos de hiato, retornava com a modalidade. 

A parceria foi amplamente divulgada nas mídias e, segundo Júlia, começou de forma promissora para a equipe. “O presidente foi super solícito. Em nenhum momento eu falei que eles não ajudaram. Na verdade eles ajudaram bastante no início, disponibilizaram estrutura, campo de treino, material. O uniforme foram eles que deram”, explica.

Ricardo Valério (Presidente) e Júlia Medeiros (Coordenadora de Futebol Feminino) |Foto: América-RN

O novo cenário e a possibilidade de jogar em um time de camisa também animaram atletas como Amanda Silva, uma das zagueiras da equipe. “Como estávamos chegando em um clube de nome, que tinha uma história e que o presidente se mostrou feliz em abrir as portas pra nós, com promessas de um futuro grande, chegamos empolgadas para começar um novo ciclo”, conta. 

O trabalho no América de Natal rendeu a conquista do Campeonato Estadual de 2020, que ocorreu em 2021 por conta da pandemia e também a participação da equipe no Brasileirão A2 deste ano, disputando a primeira fase da competição, que foi encerrada em junho. 

Início dos problemas

Nesse meio tempo, segundo a ex-Coordenadora de Futebol Feminino, os problemas começaram a acontecer. O estopim foi a falta de repasse financeiro do auxílio da CBF enviado exclusivamente para o futebol feminino. Os detalhes vieram à tona na última segunda-feira (5), com a divulgação de uma carta aberta.

Leia um trecho da carta:

“Durante o período do campeonato chegou a informação que a CBF disponibilizaria de 50.000,00 reais para os clubes presidência do clube, ficamos de minimizar o máximo os custos para futuros campeonatos e manutenção do time. Devido a não classificação no brasileiro, o último jogo pela equipe teve suas despesas e, logo em seguida, foi entrado em contato para novamente repassar as despesas gastas com suas respectivas notas fiscais. 

O presidente então entrou em contato dizendo que não tinha caixa para repassar o valor, mesmo não tendo sido repassado 1 real referente ao crédito de 50.000,00 e ainda restando valores anteriores (que já tínhamos recebido em partidas anteriores). Além disso, vale frisar que não foi repassado nenhum valor para as atletas do estado e comissão técnica,o que mesmo não tendo sido acordado inicialmente com o clube, tinha sido pensado e conversado após repasse dos 50.000,00 reais, o que foi discutido e solicitado repasse de parte do valor de ajuda de custo para as nossas atletas representantes (valor simbólico)”

Clique aqui para ler na íntegra. 

De acordo com a carta, o valor que teria sido acordado com o clube para a equipe começar os preparativos para o Brasileiro A2 foi o de R$ 5.000. Mas, foram repassados apenas R$ 2.000, acarretando para Júlia uma dívida no cartão de crédito pessoal que supera, atualmente, os R$ 3.000. 

Ainda segundo ela, após a situação sair na imprensa, o contato com o presidente Ricardo Valério não foi mais possível. “Não tenho mais contato com o presidente. Quando houve a primeira denúncia, que eles conseguiram abafar o caso, ele me ligou em tom de ameaça, dizendo que não podia fazer aquilo, que o clube tava passando por uma situação muito difícil, que o clube não tinha caixa, e falou várias coisas”, explica. 

Após a divulgação da carta, Júlia também afirmou que estava se despedindo do clube e da luta pelo futebol feminino no RN. “O sentimento é de indignação porque parece que é mais do mesmo o tempo todo. Então a gente fica o tempo todo achando que vai dá certo, e o tempo todo é mais do mesmo”, desabafa.

Amanda Silva, Zagueira | Foto: Patrícia Oliveira @poa_sport

Além de lamentar a situação atual, a zagueira Amanda Silva, em entrevista exclusiva para o Fut das Minas, diz se sentir injustiçada. “Quando eu vejo que uma coisa dessa acontece, é simplesmente ignorar, é tirar dinheiro da boca de uma pessoa que iria fazer diferença, sabe? Além de ser nosso, por direito, iria ajudar uma pessoa dessa. E então, simplesmente um clube grande, ignorou a realidade da gente que luta”.

Um dos pontos de maior revolta, segundo Amanda, é que algumas atletas do clube passaram necessidades básicas em meio a pandemia. Na ocasião, a equipe se uniu e doou alguns insumos para ajudar. Se o auxílio tivesse chegado nas mãos dessas atletas, a realidade poderia ser diferente.

 “Tem uma amiga de elenco, que usava do futebol para colocar dinheiro dentro de casa, se lesionou e simplesmente não tem como ter uma renda, e não consegue fazer uma cirurgia porque é extremamente caro. E o clube não ajudou com nada. Apesar da gente correr com a camisa estampada de patrocinador de hospital, né? Mas a gente não tinha acesso a nenhum”, ressalta.

Amanda Silva, Zagueira.

Presidência do América-RN se defende

Em entrevista por telefone, o Presidente Ricardo Valério afirmou que o clube repassou cerca de R$ 80.000.00 reais de recursos recebidos pela CBF para o futebol feminino e a participação no Brasileiro A2, seja para pagamentos de despesas de viagens e hospedagens, como também para exames de Covid-19, imprescindíveis para a atuação das atletas e comissão nas partidas. 

No entanto, esse valor não tem relação com o auxílio enviado pela CBF. O montante também não se aproxima dos valores citados por Júlia Medeiros, na carta divulgada. Questionado, Ricardo explicou que todos os gastos estão registrados em notas fiscais e poderá apresentar em breve. “Estamos agora em um momento decisivo para o clube, que disputa a série D. Mas assim que passar, vou buscar a Júlia para resolvermos essa situação de forma mais amigável possível”, afirmou.

Ricardo Valério – Presidente do América-RN | Foto: Pedro Vitorino

Em relação ao auxílio enviado pela CBF, o presidente afirmou que o valor está retido e poderá ser liberado com algumas condições. “Os 50 mil estão à disposição do Futebol Feminino, desde que hajam despesas contemporâneas daqui pra frente. Não podemos deliberar o dinheiro para algo que já passou, pois não têm como prestar contas à CBF de algo que ainda não aconteceu”, explica.

No entanto, entramos em contato com a assessoria da CBF, que explicou que todos os valores são repassados para os clubes ressaltando a utilização nas despesas do futebol feminino, e que a entidade não faz nenhum tipo de gerência do uso do valor.

Quanto aos valores acordados que não foram repassados, Ricardo disse que ainda há dinheiro disponível. “Do recurso anterior que recebemos tem saldo de R$ 2.114, que estão à disposição da executiva Júlia”, detalhou.

Além disso, o presidente também afirmou que o clube deseja continuar com o projeto. “A gente abraçou a causa do Futebol Feminino de forma carinhosa e atenciosa desde o início. O América tem todo interesse em seguir com o trabalho, estamos abertos ao diálogo e a continuar com o futebol feminino, desde que haja um projeto futuro”, finalizou.

Futuro no futebol feminino no RN

Sem saber qual o destino, o sentimento dentro do futebol feminino do América-RN é de desesperança. “A gente quer tanto que o projeto futebol feminino dê certo, que a gente também abraça a causa. E jogamos por amor ao esporte, em busca de melhorias. E quando algo do tipo ocorre, a gente se sente desvalorizada”, explica a zagueira Amanda Silva, que complementa destacando os talentos regionais. “Existem muitas meninas que jogam bola, é maravilhoso ver. Mas elas precisam de vez”, ressalta. 

Já para Júlia Medeiros, o futebol feminino do RN precisa de profissionalismo. “Falta uma seriedade e um profissionalismo dos clubes, principalmente os clubes de camisa grande, assim como teve em São Paulo e no Rio de Janeiro, no Sul, no Bahia e em outros estados e regiões, afirma.
Para a ex-coordenadora da equipe, o machismo também é um fator que ainda dificulta o desenvolvimento. “Tem um pouco o lado machista da coisa, que futebol é feito por homens, pra homens o tempo todo homens. E a gente vê que a nível de Brasil e mundo isso não é verdade, mulher também sabe fazer futebol, seja dentro ou fora de campo” defende.