Futebol feminino no Afeganistão: como o regime autoritário do Talibã pode afetar a modalidade

Por Fernanda Gasel e Vitória Soares

O futebol feminino no Afeganistão sempre foi sinônimo de luta e liberdade para as mulheres. A Seleção Feminina Afegã foi criada em 2007 e, desde o início, as mulheres que praticavam esportes eram vistas como transgressoras do regime político, e muitas experimentam o preconceito até os dias de hoje. 

Apesar da modalidade registrar nos últimos anos um crescimento, devido aos jogos masculinos e femininos serem transmitidos na TV, as atletas do Afeganistão lutam por algo muito mais importante do que títulos: dignidade, para serem ouvidas e por sua própria identidade. Se jogar futebol já era desafiador para as mulheres afegãs, a situação ficou desesperadora com o retorno do Talibã ao poder, no último dia 15 de agosto, quando o regime reassumiu a tomada de poder no país. 

Ascensão e queda do Talibã

O Talibã é um movimento fundamentalista e nacionalista islâmico que se difundiu no Paquistão e, sobretudo, no Afeganistão, a partir de 1994, durante a Guerra Civil Afegã. Esse grupo governou o país durante cinco anos, que ficaram marcados por todo o tipo de violência, principalmente relacionados às mulheres. 

De 1996 a 2001, o grupo passou a perseguir opositores e minorias étnicas e religiosas. Para as mulheres, o Talibã restringiu os direitos em todos os sentidos: sociais, profissionais e econômicos. O grupo impôs uma lista de 29 regras que retirava todo o tipo de direitos. Elas eram proibidas de estudar, trabalhar, sair de casa desacompanhadas de um marido ou tutor do sexo masculino, eram penalizadas se saíssem com mais de um ou dois centímetros de pele à mostra, além de serem espancadas e estupradas. Nos anos de poder do Talibã uma coisa ficou clara: o controle e a perseguição às mulheres é uma das bases do pensamento dos seus adeptos. 

Se os direitos e garantias fundamentais foram violados na época do regime Talibã, o esporte também não ficaria de fora. Os homens também eram afetados, mas as mulheres não poderiam nem pensar no assunto. Garotos foram presos em Cabul por jogarem futebol usando bermudas. Em 2000, o país chegou a ser suspenso e banido da Olimpíada de Sidney devido às condutas rígidas impostas pelo grupo extremista. Pugilistas foram eliminados de competições de boxe por manterem suas barbas. O Talibã tinha controle e poder em todas as esferas da sociedade. 

Os abusos só acabaram com a queda do grupo pelas tropas estadunidenses. No dia 7 de outubro de 2001, os Estados Unidos, sob o impacto dos atentados de Nova York e Washington, e seu aliado britânico lançaram uma ofensiva contra o regime dos talibãs. Tropas norte-americanas invadiram Cabul e assumiram o controle do país. 

Retorno ao poder 

O grupo extremista passou por um período de decadência após a sua queda do poder, mas suas forças ainda eram uma ameaça no Afeganistão, embora não controlasse o país. Apesar do constante medo, Cabul se desenvolveu, e a população, incluindo as mulheres, adquiriram direitos que não tinham até mesmo antes do Talibã. Porém, o caos e o medo se restabeleceram em 15 de agosto, quando o grupo extremista retomou o controle do Afeganistão, ameaçando novamente a liberdade e os direitos das mulheres e cidadãos em geral.

Futebol feminino no Afeganistão: como o regime autoritário do Talibã pode afetar a modalidade
Integrantes do Talibã na sede do governo afegão. Foto: El País

Com o retorno do grupo fundamentalista islâmico ao poder após 20 anos, as afegãs temem perder os direitos sociais e econômicos que conquistaram nas últimas duas décadas. Consequentemente, as jogadoras da Seleção Feminina Afegã se veem como alvo altamente visíveis para o novo regime.

O futebol feminino no novo regime

Além de parar de jogar, as jogadoras também podem ser capturadas e espancadas pelos militantes. Pouco depois do novo regime se instalar, algumas figuras importantes da modalidade no país, manifestaram seus medos sobre o que poderia acontecer com as atletas. 

A treinadora de goleiras, Wida Zemarai, afirmou ao jornal sueco Expressen que, “se o Talibã pegar alguma das garotas, eles não as deixarão deitadas em casa como bonecas. Eles querem usá-los como escravas sexuais e torturá-las. Talvez elas até morram.”

Shabnam Mobarez, atual capitã da seleção, que mora nos Estados Unidos, fez um apelo por meio do seu Twitter, para que a FIFA ajudasse as jogadoras afegãs. Mobarez, também revelou que nem a Federação Afegã de Futebol tomou alguma providência, “Elas estão escondidas na casa de familiares ou amigos, sem revelar sua identidade. Até os membros e funcionários da Federação Afegã de Futebol simplesmente desapareceram, eles deveriam protegê-las e não há ninguém lá.”

Já a  ex-capitã da seleção afegã, Khalida Popal, relatou ao Daily Mail que “Isso parte meu coração porque, em todos esses anos, trabalhamos para aumentar a visibilidade das mulheres e agora estou dizendo às minhas mulheres no Afeganistão para calarem a boca e desaparecerem. Suas vidas estão em perigo.” 

Futebol feminino no Afeganistão: como o regime autoritário do Talibã pode afetar a modalidade
Khalida Popal é uma das pioneiras do futebol feminino no Afeganistão. Foto: MenaFn

Em 2007, Popal fez parte da primeira seleção nacional e desde então é uma das grandes vozes da modalidade no país. Por conta da sua luta em prol do desenvolvimento do futebol feminino, ela recebia constantes ameaças e acabou precisando sair do Afeganistão. Popal pediu asilo na Dinamarca e, mesmo de longe, nunca abandonou as jogadoras ajudando a expor abusos físicos e sexuais, ameaças de morte e estupros que envolveram a liderança da federação do Afeganistão, em 2018.    

“Elas podem sonhar de novo”

Em meio ao medo e a incerteza sobre a vida da população afegã, por ora, ainda há esperança para um grupo de mais de 75 pessoas que conseguiram fugir do regime Talibã. Na última terça-feira (24), jogadoras da seleção do Afeganistão, dirigentes e familiares conseguiram deixar Cabul em voo organizado pelo governo da Austrália. 

A operação para a saída das jogadoras do país não seria fácil e foi preciso a formação de um grupo para isso. Popal auxiliou uma equipe de advogados e consultores da Fifpro que vinha mantendo contato intenso com autoridades de seis países, incluindo Austrália, Estados Unidos e Reino Unido, para que estes colocassem as atletas e seus familiares em listas de evacuação e em voos para fora do Afeganistão.

A ex-nadadora australiana Nikki Dryden, que participou de duas edições dos Jogos Olímpicos, aliou-se a um advogado para preencher os pedidos de visto para os atletas afegãos, entre eles dois atletas paralímpicos. Já o ex-capitão da seleção australiana de futebol, Craig Foster, ajudou pressionando membros do governo para que a burocracia não atrasasse o plano. 

Após os esforços do grupo, o plano deu certo. Mobarez, que mantém contato com as jogadoras, disse ao SBS News que “É uma bela transição. Muitas delas estão muito animadas para viver em um espaço que seja seguro para elas e para continuar seus sonhos pelos quais elas começaram. Elas têm sido tão corajosas. É uma loucura o que elas passaram. Eu me sinto como se esta fosse uma luta que elas venceram. ”  

Muito mais que uma fuga, a chegada na Austrália representa um recomeço para as jogadoras afegãs e as palavras da capitã da seleção representam isso, “Elas podem sonhar de novo”. 

Ainda não se sabe como os resgatados serão assentados na Austrália. Mas quando isso acontecer, Mobarez espera que a seleção feminina possa se reunir novamente, “Uma vez que todas as atletas femininas estejam seguras, isso é algo de que todos nós precisamos, que é nos reunirmos e nos abraçarmos”.