Considerada melhor 10 do Brasil, Gabi Zanotti vive anos de boa fase e alto nível: “sempre fui movida por desafios”

Comemoração de gol na final do Paulista Feminino 2021 | Rodrigo Gazzanel / Ag. Corinthians

Se há uma unanimidade no futebol feminino brasileiro, é a que Gabi Zanotti é a melhor 10 do Brasil. A meia-atacante chegou ao Corinthians em 2018 e, desde então, tem colecionado títulos (coletivos e individuais) e superado seus próprios recordes. 

Em entrevista exclusiva ao Fut das Minas, Zanotti contou um pouco da sua trajetória até chegar aos gramados, falou sobre o momento no Corinthians e os planos para o futuro. 

Cria de Itaguaçu

Antes que o nome da capixaba ecoasse na arquibancada e estampasse as camisas do Corinthians, foi necessário trilhar uma longa jornada, que começou em Itaguaçu, uma pequena cidade do interior do Espírito Santo, com pouco mais de 14 mil habitantes e localizada há 135 km da capital, Vitória. 

Desde muito nova, Gabi Zanotti já batia bola com os meninos na rua ou nos campos perto de casa. Logo aos oito anos, percebeu que era aquilo que queria e decidiu mudar de cenário para buscar mais oportunidades. “Eu já saí de casa com esse intuito, porque eu tinha em mente que eu já queria ser atleta de futebol […] Eu sabia que pra conseguir alguma coisa ali ia ser muito difícil, então, eu me mudei pra capital.

Em Vitória, Zanotti passou a morar com seus avós e sair em busca de bolsas de estudos em escolas secundaristas. Foi assim que passou a fazer parte das equipes que disputavam competições escolares, ganhando mais visibilidade. “Em Vitória eu jogava de tudo, futsal, beach soccer e campo. E aí nós fomos disputar uma taça Brasil de Futsal, e aí eu recebi a proposta do Kindermann de Caçador-SC. No Sul, né? O futsal sempre foi mais forte. Então eu já aceitei a proposta”, contou.

Apoio da família

Contar com o apoio da família foi essencial para que Gabi Zanotti pudesse desenvolver sua carreira profissional. Além de toda família ir mudando aos poucos para Vitória-ES, a meia também contou com o apoio do avô, que não media esforços para ajudá-la. 

“Muitas vezes o clube não tinha verba suficiente, aí meu avô, que tinha alguns contatos políticos, tentava ajudar de alguma forma […] A gente ia lá na câmara municipal. Ele tentava meio que conseguir alguma coisa. Ele sempre foi um grande incentivador, colocava desafios pra mim: “Se você fizer um gol no jogo hoje, vou te dar tal coisa.”

Após receber a proposta do Kindermann, Gabi precisou mudar-se para Santa Catarina e continuou a ter o apoio constante da família, só que, desta vez, à distância.

Da quadra aos gramados

Ao chegar no Kindermann, Zanotti despontou e passou a colecionar títulos nas quadras. Venceu campeonatos Catarinenses, foi campeã da Taça Brasil e, vestindo a camisa da Seleção Brasileira de Futsal, venceu também o Univesíades na Turquia, conquista que lhe a consagrou como melhor jogadora de futsal do Brasil, ao lado do Falcão. 

Gabi Zanotti na Seleção Brasileira de Futsal | Reprodução Internet

Logo que se percebeu no ápice dentro das quadras, ela decidiu que era hora de ir em busca de mais, e passou a correr atrás de novos cenários para disputar.

Eu sempre fui movida por desafios. Agora não tenho mais o que crescer aqui, então eu tenho que buscar novos ares e mais desafios. Sempre foi assim.”

Em 2006, Gabi Zanotti saiu do Kindermann e começou a enviar e-mails para algumas universidades nos Estados Unidos, solicitando bolsas de estudo. Sem dominar o inglês, a atleta usava o google tradutor para escrever as mensagens e também enviava alguns vídeos.

Não demorou muito para que ela fosse aceita e iniciasse em 2006 a sua transição para os gramados. “Foram vários e-mails pra universidade, algumas foram respondendo e eu traduzi e fui vendo assim no que dava. Eu fui pro campo mesmo a partir de 2006. Então, se você pensar, minha escola mesmo no futebol de campo, foi nos Estados Unidos”, revelou. 

A temporada de Gabi Zanotti nos Estados Unidos durou cinco anos. Logo após, ela retornou ao Brasil e teve passagens pelo extinto Foz Cataratas-RS, Santos e Centro Olímpico. 

Nesse meio tempo, a craque também passou pelo futebol Asiático, onde passou a ganhar mais dinheiro com o futebol. “Eu comecei a receber um salário melhor, quando eu fui realmente jogar na Coréia em 2014, e aí depois eu tive duas oportunidades. Joguei dois anos na China em 2016, 2017, até voltar para o Brasil em 2018”, contou. 

História no Corinthians

Já bem conhecida por Arthur Elias e comissão técnica, em 2018 a meia recebeu o convite para integrar o Corinthians e logo aceitou. “Quando eu recebi o projeto, fiquei muito feliz de ver o que o Corinthians tinha pro futebol feminino. Aí eu não pensei duas vezes né? Tá voltando pro Brasil, fazer parte desse desenvolvimento da modalidade no país, tá perto da minha família também. Foi um mix de tudo que me fez voltar”, revelou.

Gabi Zanotti concentrada em treino da equipe | Agência Corinthians

Foi aí que Gabi Zanotti começou a escrever a sua melhor fase na carreira. Desde então, foram três títulos brasileiros, duas Copas Libertadores, três Campeonatos Paulistas e uma Supercopa Feminina. 

A construção de uma equipe campeã e com fome de títulos tem uma explicação: gestão e comprometimento.

“O Corinthians tem uma Cris, uma comissão técnica que todo mundo trabalha incansavelmente, sem hora pra começar e sem hora pra terminar. Então é por isso que as coisas acabam acontecendo e por isso que aconteceram de 2018 pra cá. E é assim desde 2017, quando encerrou a parceria com o Audax, que o Corinthians só vem em uma crescente.” 

Ainda segundo Gabi Zanotti, a estrutura técnica e a evolução dos profissionais que dão suporte, refletem no diferencial do Corinthians. Nós temos Nutricionistas, Departamento Médico, tudo o que realmente um atleta precisa. O preparador físico Marcelo, a Carlinha, eles foram também se modernizando e estudando para tentar cada vez mais elevar o nosso nível de jogo, físico e tático”, disse.

Melhor 10 do Brasil

O poder ofensivo que o Corinthians mantém há alguns anos passa, muitas vezes, pela habilidade e criação da Zanotti. Não à toa ela é reconhecida por diversos analistas como a melhor camisa 10 do Brasil. 

No entanto, a craque prefere não fazer comparações. “Eu prefiro me comparar comigo mesma, do que me comparar com outras atletas. Eu fico feliz, lógico, com esse reconhecimento e o mais legal ainda, é que eu escuto muitas vezes não só por torcedores do Corinthians. Então não é só clubismo, né? (risos)”.

Gabi Zanotti comemorando gol do título na final da Supercopa Feminina | Rodrigo Gazanel/ Agência Corinthians

A humildade e a consciência de sempre buscar evolução, são características que sempre a acompanharam na trajetória. Para ela, analisar e perceber essa evolução é um ponto motivador para buscar mais. 

“Eu fico muito feliz com todo esse carinho e reconhecimento, e eu vejo o quanto evoluí dentro de campo em termos de entendimento de jogo, performance, parte técnica e tática, fisicamente, né? Como eu falei, o futebol foi trazendo novos desafios e eu tive que também ir mudando minha característica de jogo, até que tem algumas pessoas que já me conhecem desde a época de Centro Olímpico, Santos, até mesmo antes disso, e fala: caramba, como você mudou seu estilo de jogar daquela época pra hoje.” 

A performance da atleta, dentro e fora de campo, também passou a inspirar outras pequenas atletas. “Você vê meninas se inspirando em mim, querendo jogar, ter o mesmo estilo, isso eu acho muito legal. recebo diariamente mensagens no Instagram e tento responder todas”, contou. 

 De olho no futuro

Em alto nível incontestável, talvez seja até prematuro pensar em uma aposentadoria do campo, e sobre isso, Gabi revelou que mesmo sem estipular data, já pensa em algumas possibilidades. “Não estabeleci nenhum prazo, mas assim, minha vida toda foi no esporte. Então eu quero trabalhar com esporte no futuro, principalmente dentro do futebol. Não sei ainda exatamente a função. Eu me formei em Administração de Esportes e Negócios. Quero me especializar, me aprofundar,  fazer cursos, tenho que começar a me mover mais para isso”, admitiu. 

Ao ser questionada se sairia do Corinthians, a craque apenas deu um sorriso e respondeu: “Não, não tenho essa pretensão”

Mensagem para as novas atletas

Para as meninas que, assim como ela, buscam se profissionalizar, Zanotti foi categórica.Se você tem mesmo o sonho de ser atleta, é você se dedicar, a gente sabe que tem de se abdicar de muitas coisas. Vida de atleta é bem diferente das outras pessoas, a gente tem que cuidar do nosso corpo, que é o nosso instrumento de trabalho. Então, é se cuidar, ser disciplinada, acreditar no nosso potencial”, orientou.

A camisa 10 também falou sobre driblar as dificuldades. “A gente vai enfrentar muitas coisas de pessoas querendo colocar obstáculos no nosso futuro. Então, é tentar só excluir isso e deixar só o que vai agregar na nossa vida, acreditar no potencial e ir em frente”, finalizou.

Amanda Porfírio
Jornalista e Profissional de Educação Física. Pernambucana, bairrista por natureza, vivendo a máxima Gonzaguista: “Minha vida é andar por esse país”. Apaixonada por futebol desde que respira. Atualmente vive em São Paulo, e tem como sonho ajudar a conduzir o futebol feminino ao topo. Fora das quatro linhas, gosta de ler, pedalar, explorar a natureza e é obcecada pela ideia de estar sempre criando algo novo.