Formidável. Um verdadeiro Fenômeno.

Por Janayna Moradillo e Mariana Santos

Miraildes Maciel Mota dispensa apresentações e, certamente, você já ouviu seu nome ecoar por todos os cantos do mundo. Nem o texto mais longo e detalhado seria capaz de representar a importância da incansável volante dentro e fora de campo. Recordista entre homens e mulheres, ninguém jogou mais bola que ela. 

Formiga, como é carinhosamente conhecida a camisa 8 da seleção brasileira, fez parte da vida de várias gerações e se firmou como uma das jogadoras veteranas da seleção ao vestir a camisa canarinho desde os 16 anos de idade.

Com 16 anos Formiga estreou pela Seleção Brasileira e jogou com a amarelinha por 26 anos. | Arquivo pessoal/Nenê

No estádio de Periperi, começou a se desenhar a lenda, quando foi revelação do Campeonato Baiano e, logo depois, do Brasilero. Não é difícil entender sua convocação precoce para a Copa do Mundo de 1995, na Suécia, com 17 anos.  

Muito nova, precisou aprender bem rápido as regras do campo. Sem ter passado por nenhuma base, Formiga disse em entrevista que foi “jogada” nos meio das feras do futebol, mas muito bem cuidada. Michael Jackson, que tinha a jogadora como filha e Taffarel, volante responsável por orientar e ceder espaço para a camisa 8. 

Trajetória vitoriosa

Aos 43 anos, Formiga é símbolo de resistência. Mulher preta, lésbica e nordestina, superou todas as estatisticas, preconceitos e humilhações. Ela viu e fez mudanças, quebrou paradigmas e se consolidou como um dos maiores nomes do futebol mundial. Entre as quatro linhas, inspira meninas e mulheres que jogam futebol e sonham em seguir a carreira profissionalmente. 

Diretamente do Lobato, subúrbio de Salvador para os campinhos paulistas, Formiga deixou seu nome. Foi em 1997, pelo São Paulo, que Formiga, Sisi e cia conquistaram o primeiro título estadual  e a Copa do Brasil e foi iniciada a lendária trajetória da meio-campista. 

Na passagem por clubes, foi mais uma vez campeã paulista, desta vez com o Botucatu, em 2008, tricampeã da Libertadores (2011, 2013 e 2014), bicampeã da Copa do Brasil (2012 e 2013) e campeã mundial (2014) pelo São José Esporte Clube. Recentemente, fez história na França. Em junho deste ano, ajudou o PSG a conquistar seu primeiro título do campeonato francês e não por acaso, ganhou o apelido de ”Formidable”.

Formiga fez parte do elenco do PSG que conquistou o primeiro título do Campeonato Francês da história do clube. | PSG

Formiga, uma Guerreira do Brasil

Formidável. Um verdadeiro Fenômeno. Quem teve a oportunidade de ver Formiga nas telinhas certamente sabe da sua inteligência dentro de campo. Volante de origem, sempre foi muito versátil e presente em todos os setores do jogo. Incansável na defesa, meia adiantada, líder nata e consistente. Essas são algumas características da jogadora que dedicou 26 anos de sua vida à seleção. 

Ganhou seu primeiro título em 2003, nos jogos Pan-Americanos (Santo Domingo). Em coletiva de imprensa antes da despedida, destacou o título como o mais importante. E a conquista foi ponto de partida dos recordes e títulos em mais de 200 jogos vestindo a amarelinha. Na mesma competição, conquistou o bicampeonato em 2007 e o tri veio em 2015.

O Pan-Americano de Santo Domingo 2003 foi a primeira conquista de Formiga com a Seleção Brasileira | Divulgação/CBF

Recentemente, em 2019, se tornou a primeira jogadora a atuar em sete Copas do Mundo, um recorde histórico – foi convocada em 1995, 1999, 2003, 2007, 2011, 2015 e 2019. Além disso, é a única jogadora de futebol a participar de sete edições das Olimpíadas – jogou em 1996, 2000, 2004, 2008, 2012, 2016 e 2021.

A volante também esteve presente na conquista da medalha de prata em 2004 e 2008 pelas olimpíadas e em 2007, com a Copa do Mundo. 

Formiga é a jogadora, entre homens e mulheres, que mais vestiu a camisa da Seleção Brasileira, foram 233 jogos, 151 vitórias, 35 empates, 47 derrotas e 37 gols. 

Formiga ajudou a Seleção Brasileira a chegar na primeira final de Copa do Mundo da história, em 2007. | FIFA WWC

Quando a cortina baixar e a Formiga não estiver mais no meio de campo da Seleção, será incrível se lembrarem de mim como medalhista de ouro. Mas, pra ser sincera, o que me define não está na cor de uma medalha. Tá no suor, tá na minha história, tá em tudo que consegui fazer pelo futebol. É assim que gostaria de ser lembrada: “Formiga, uma guerreira do Brasil”,

trecho da carta aberta escrita por Formiga para a torcida brasileira.

Formiga foi passado, presente e sempre será futuro. 

Reconhecimento mundial

O respeito e admiração pela carreira de Formiga vai além das quatro linhas e o anúncio da aposentadoria da jogadora da Seleção Brasileira repercutiu em portais, perfis oficiais de clubes ao redor do mundo e de jogadoras que atuaram com Formiga ou que a tiveram como referência durante toda a carreira. 

O perfil oficial da Copa do Mundo Feminina postou sobre Formiga: “Um verdadeiro ícone do jogo com uma carreira que se estende por quatro décadas, de cair o queixo, e sete, sim SETE, Copas do Mundo”

O perfil da Champions League Feminina escreveu sobre a jogadora. “A jogadora com mais partidas pelo país jogará sua última partida pelo Brasil em um amistoso contra a Índia no final deste mês”

As Sereias da Vila, equipe pela qual a Formiga atuou em 2002, também agradeceu a eterna camisa 8: 

“Ela, que também foi #SereiaDaVila assim como tantas outras ícones do futebol feminino, construiu um legado eterno, inesquecível e que inspirou muitas meninas a seguirem carreira dentro do futebol das mulheres”.

O perfil oficial da Seleção dos Estados Unidos se juntou às homenagens para a Formiga. “Uma lenda do jogo e uma carreira verdadeiramente notável. Parabéns Formiga!”

Megan Rapinoe, eleita a melhor jogadora do mundo em 2019 e colega de Formiga no Chicago Red Stars em 2010, postou em seu Instagram: 

“Uma das melhores da história. Tive a honra de jogar com Formiga e, claro, contra ela. E, de verdade, não posso dizer que existe outra melhor dentro e fora do campo. Que carreira! Que jogadora! Obrigada por nos deixar testemunhar sua grandeza”

Asllani, jogadora do Real Madrid e que também atuou com Formiga no Chicago Red Stars, falou sobre a despedida de Formiga em seu Instagram. “Uau, parabéns pela incrível e longa carreira Formiga. Uma das melhores jogadoras com quem já joguei, o futebol vai sentir sua falta”.

Carli Lloyd, bicampeã mundial com os Estados Unidos e que recentemente se aposentou da seleção americana, postou em seu Twitter: “Lenda. Muito respeito por você !! Jogadora e carreira incríveis. Tudo de bom no seu futuro!”

A despedida

Anunciada no dia 9 de novembro pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a despedida de Formiga da Seleção Brasileira, além da repercussão mundial, lembrou um sentimento recorrente: a CBF não sabe valorizar seus ídolos – principalmente do futebol feminino. 

O Torneio Internacional de Manaus foi divulgado 21 dias antes da despedida, no entanto, as informações da partida como horário e vendas de ingressos ficaram esquecidas.

No dia 22 de novembro, a CBF divulgou a tabela do torneio e no dia 23, apenas dois dias antes da despedida, a venda de ingressos foi liberada, com preços considerados altos para um evento que deveria lotar todos os estádios do mundo. A entrada custa 80 reais (inteira) e 40 (meia) + taxa de conveniência para as compras online. 

Outro assunto comentado nas redes sociais foi a possível ausência de Cristiane e Marta na despedida de Formiga. O trio jogou junto por décadas, fez campanhas históricas e conquistou títulos importantes com a amarelinha.

Cristiane, Formiga e Marta estiveram juntas durante várias conquistas da Seleção Brasileira | CBF

Cristiane não vem sendo convocada pela técnica Pia Sundhage para a Seleção Brasileira e, por isso, não está com o grupo que jogará a última partida de Formiga. Já Marta, foi convocada, mas está resolvendo problemas pessoais e avisou antecipadamente à CBF sobre o fato. A ausência da camisa 10 não foi confirmada oficialmente.

“Sentirei falta das duas porque fazem parte da minha história. Duas guerreiras que vêm ao meu lado lutando por melhorias e, nesta reta final, não faz sentido elas não estarem presentes. Espero que num futuro próximo a gente esteja vestindo a mesma camisa em prol da modalidade”.

Formiga, em coletiva de imprensa.

Homenagens 

Uma das iniciativas ficou por conta do 3B, time que cedeu o Centro de Treinamento (CT) para a Seleção Brasileira. O presidente do clube amazonense, Bosco Bindá Brasil, recepcionou Formiga com buquê de flores e personalizou o CT com fotos e dados históricos da carreira da camisa 8.

O muro do CT do 3B foi todo personalizado em homenagem à Formiga | Thais Magalhães/CBF

Pelo lado da CBF, houve uma série de homenagens para a Formiga para este dia de despedida. A fachada da Confederação, no Rio de Janeiro, também foi decorada em agradecimento à trajetória de Formiga na seleção.

Fachada da CBF, no Rio de Janeiro, homenageia Formiga | Divulgação/CBF

A mãe de Formiga, dona Celeste, vai acompanhar pela primeira vez uma partida da filha ao vivo. Ela viajou de Salvador para Manaus e está acompanhada de Nina (assessora), Taila (sobrinha), Edinalva (amiga da família) e Erica (esposa de Formiga).

Além disso, mensagens de vídeo de Marta, Cristiane, Cafu, Aline Pellegrino, Alisson Becker, Sissi e Megan Rapinoe foram divulgadas nas redes sociais da Seleção Feminina. Outras diversas atletas e ex-colegas de Formiga fizeram homenagens à camisa 8 em suas redes pessoais.

Depois do Adeus, um até logo

Hoje veremos a despedida de uma lenda viva pela Seleção Brasileira, mas ainda não é hora de aposentar as chuteiras. Assim como as formigas sempre encontram um novo caminho, subindo, descendo, dando voltas, mas sem mudar o seu destino, a camisa 8 mais amada da nação vai continuar nos gramados. Atualmente, Formiga joga pelo São Paulo. Aqui no Brasil, e por certo tempo, ainda teremos o prazer de ver a formidável Formiga em campo. 

Mariana Santos
Jornalista. Do campo, quadra e areia, encontrei no jornalismo a junção de duas paixões, o esporte e a comunicação. No Fut das Minas, a missão mais importante: escrever sobre o protagonismo das mulheres no futebol e no mundo. Comentarista às vezes. Palpiteira sempre.